Você se deita na cama pra dormir. Não consegue. Rola pra um lado. Rola pro outro. Seu corpo quer descansar. Seu cérebro não. Começa então uma viagem de arrependimento, frustração e paranoia, que só passa quando o seu cérebro cansar de sofrer.
É o tipo de tortura que fazemos conosco. Masoquismo. Nos martirizamos. Lembramos de tudo. Pensamos em tudo. Crescemos enquanto estamos deitados. Pensamos em tudo. Entendemos tudo. Nos elevamos a um nível divino. Ficamos sábios.
Lembramos de tudo que nos arrependemos por ter feito. Por não ter feito. De tudo que deu errado. De tudo que poderia ter dado certo. Tudo que provavelmente daria certo. Tudo que era certo e não foi. Por medo, por paranoia. Por ser um idiota descerebrado. Por pensar demais.
Frustrados pelo leite derramado. Pela flecha atirada. Pelo alvo errado. Nada deu certo. Não daria certo. Nada dá certo. Nada dará certo. Não há esperança. Só há dor e sofrimento. Não há amigos. Não há refúgio. Não há cura. É o fim.
É insuportável. Desesperador. Estamos sós. Abandonados. Um drama digno de Oscar em um filme que ninguém assiste. Sós, no escuro. Sem visão. Não há luz no fim do túnel. Sem esperança. Sem mudança. Sem milagre. Sem mágica. Sem Deus.
Você sente vergonha. Você sente pena de si mesmo. Se desespera. Você desiste. Não aguenta o fardo. Você apela: Você ora. Só escuta o silêncio. Não sente alívio. Ninguém está ouvindo. Você desiste novamente. Perde a esperança de novo. Não há solução. A dor não passa.
Fraco, você cai. Beija a lona. Nocaute. Você apaga. Seu sistema dá shut down. Desliga. Você dorme. Sonha. Sonhos bons, sonhos ruim. Sonhos incríveis que você não se lembrará. Você acorda. Mais uma frustração. Você passou por tudo aquilo na madrugada, mas agora tudo já não parece tão ruim. Não parece ter sido real.
A oração funcionou? Você superou? Você se curou? Você está bem? Você está feliz? Você se levanta. Você cresceu. Aprendeu. Está mais sábio. Pronto pra uma nova batalha. Pronto pra apanhar novamente. Pronto pra vencer. Nada mudou. É tudo ilusão.